Novos Invasores

O desejo de convergência é a substância criadora do Novas Invasões: Nesta festa não só se conjugam dois tempos históricos – Passado e Presente – como se procura estabelecer uma relação entre diversas culturas, representadas por artistas de vários países.

Em cada edição do Novas Invasões, contamos com representações artísticas de Espanha, França, Inglaterra e Portugal, mas procuramos sempre convidar um país que represente o “novo invasor”. Esta “invasão” por um país convidado, ao contrário das invasões napoleónicas do século XIX, é positiva e constitui um momento de partilha, respeito e aprendizagem, onde se procura uma aproximação à cultura e aos costumes desse convidado. Tentamos, assim, gerar uma nova convergência, mediada pela prática artística – linguagem sempre universal.

Na edição de 2017, e porque o país convidado não tem de possuir necessariamente uma relação histórica com as Linhas de Torres, optámos por escolher o Japão como “Novo Invasor”. A relação de Portugal com o Japão remonta ao século XVI (1542/43), ainda que só em meados do século XIX (1860) se tenham estabelecido relações diplomáticas oficiais, através do denominado “Tratado de Paz, Amizade e Comércio”.

Contudo, talvez a relação mais estreita que o Concelho de Torres Vedras possui com o Japão, já no século XX, seja a estadia entre 1971 e 1972 do escritor Kazuo Dan na praia de Santa Cruz. Uma relação que se destaca tanto na poesia do autor, como na relação de amizade que veio a estabelecer com os habitantes locais. Nesta praia, em 1992, foi erigido um monumento em memória de Kazuo Dan. Sobre a mesma praia é seu este poema:

"Belo Sol Poente
Ah Pudesse eu ir buscar-te
Lá, ao fim do mar!"

Convergência é a palavra chave – o desejo de nos aproximarmos e aprendermos com o outro. Talvez seja esta a melhor justificação para a escolha de um país que nos é tão distante como o Japão. Fazemos assim convergir o lugar onde o sol nasce, a oriente, com o lugar do sol poente. Damos mais um passo no desbravamento daquilo que Lévi-Strauss definiu como a incomensurabilidade das culturas.

Através da arte, Passado e Presente conjugam-se, permitindo-nos vislumbrar aquilo que poderá ser o Futuro, tempo esse que desejamos realizar em partilha e comunhão com a diferença, pois só assim se pode estabelecer uma tão necessária razão universal, capaz de elevar este nosso espírito humano, por vezes tão defeituoso.


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